Li um artigo do Prof. Silvio Meira, A estética da destruição: de Marinetti aos Tech Bros, que traça um paralelo entre o futurismo de Marinetti (com sua glorificação da máquina, da guerra e da destruição da velha ordem) e os manifestos atuais dos Tech Bros do Vale do Silício. Meira diagnostica o que vivemos hoje não como capitalismo de livre mercado, mas como tecnofeudalismo: as plataformas deixaram de ser mercados para se tornarem feudos digitais, e nós, usuários e cidadãos, fomos reduzidos a servos da gleba na nuvem. A conclusão do artigo é ainda mais dura: estamos assistindo à ascensão do tecnofascismo, asséptico, algorítmico e imune ao voto.
O texto me provocou algumas reflexões.
Esse cenário já vem sendo profetizado há muito tempo. Podemos citar obras de ficção como a franquia Alien (que começou em 1979, com roteiro de Dan O'Bannon e Ronald Shusett), o romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K. Dick, eternizado no cinema como Blade Runner em 1982, e Neuromancer, de William Gibson. Também o conto de Bruce Bethke que, na década de 1980, forjou o próprio termo cyberpunk. Mais recentemente, obras como o jogo Cyberpunk 2077 e a série Alien: Earth dão ênfase explícita ao contexto político, social e econômico desse colapso.
Em todas essas obras existem os "feudos" formados por grandes corporações e supermilionários que dominam o mundo, substituindo governos eleitos democraticamente. É justamente esse lugar distópico que os super-ricos e as Big Techs almejam, e trabalham ativamente para alcançar, sob o ápice de um neoliberalismo desenfreado, inclusive já declarado abertamente por figuras como Elon Musk. E não são apenas tecnocorporações: temos corporações religiosas, feudos do agronegócio, máfias como a orquestração da indústria musical (vide o fenômeno do Sertanejo), corporações televisivas em migração para o streaming, e os setores de saúde e farmacêutica. É o que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo: essas plataformas deixaram de ser mercados para se tornarem feudos digitais, onde nós, usuários e cidadãos, somos reduzidos a vassalos digitais, produzindo dados gratuitamente para corporações que extraem renda simplesmente por controlarem a infraestrutura vital da sociedade.
Há, portanto, uma guerra em curso, talvez a verdadeira Terceira Guerra Mundial. Mas não é uma guerra pacífica: muito mais gente morre nela do que nos campos de batalha tradicionais, embora estes também ocorram ao fundo. Como bem pontuou Meira, vivemos o ápice do biopoder de Foucault. A vigilância digital foi automatizada e transformada em infraestrutura preditiva: algoritmos que decidem quem recebe crédito ou qual alvo recebe um míssil. É a banalidade do mal de Arendt, mas agora transferida para servidores que "apenas otimizam funções matemáticas". Os governos, principalmente os de extrema-direita, com seus teatrinhos fascistas, são peças montadas no tabuleiro para servirem de peões dessa elite. A polícia e a justiça tornam-se estruturas moldadas para manter o status quo dos poderosos.
Qual é o nosso papel nisso tudo? Não sei, talvez sobreviver. Somos todos pobres; a classe média é uma falácia. Ter uma loja, uma pequena empresa, uma padaria, trabalhar para uma grande corporação ou ter um salário razoável: em nenhum desses cenários, se pararmos de trabalhar, poderemos viver bem pelo resto da vida.
O que fazer para que isso não escale? Talvez o caminho seja recuperar nossa agência epistêmica e política. Precisamos tratar essa fusão entre Big Techs e o Estado não como "inovação", mas como uma ameaça existencial que exige transparência radical e o desmonte desses monopólios, antes que o código substitua definitivamente a política.
Se rebelar? Existem nichos, claro, mas a estrutura trabalha para nos distanciar, separar e dividir. Um povo em que as pessoas não têm mais amigos, não têm grupos, não têm união, é um povo fraco. Mesmo essa polarização política é um projeto: manter uma guerra entre o povo torna-o fraco demais para reivindicar o poder, que permanece concentrado nos super-ricos e nas grandes corporações.
Enfim... Divida et impera.
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